Anacleta

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Dentre as minhas muitas andanças, a que fiz para o Maranhão, em 2016, marcou-me demais. Conheci gente forte, resistente. Senti um calor melado e tingido pelo pó da estrada de ferro Carajás. Parte dessa experiência eu conto no meu livro, o Mulheres Extraordinárias publicado pela Paulus Editora e na reportagem Trilhos na Vida que foi premiada pela CNBB em 2017.

Na VICE também publiquei um trabalho extenso sobre os impactos da exploração de minério de ferro nas comunidades tradicionais do sul do Maranhão. E no site deles é possível babar nas fotos do Felipe Larozza.

Por aqueles dias maranhenses conheci a Anacleta Pires de Almeida. Ela tinha 49 anos, um rabo de cavalo preso e uma força que não há adjetivo suficiente aqui para descrever. Lembro de entrevistá-la com o olhar firme, o meu e o dela, para não perdê-la. Fiquei tocada, mexida, e talvez essas linhas hoje tomem forma justamente porque é preciso resistir como Anacleta faz.

Anacleta 3

Anacleta por Felipe Larozza

A longa entrevista que fiz com aquela mulher, às margens de uma rodovia que corta sua terra tradicional quilombola, foi publicada na revista impressa em que trabalhava na oportunidade. Agora, compartilho-a aqui com alegria e com o desejo de que Anacleta atinja meu leitor, tanto quanto me atingiu.

Aquela forte mulher de vestido florido nasceu e vive no quilombo de Santa Rosa dos Pretos, localizado no município de ltapecuru Mirim, no quilômetro 135 da BR que liga o interior à capital do Maranhão, São Luís. Foi ali também que nos recebeu para uma conversa, às margens da rodovia, entre uma buzinada e outra, com o cabelo preto em coque e um justo suor escorrendo pelo rosto.

Quilombola, liderança de seu território e de sua cultura, Anacleta não vive só. Seu quilombo conta com cerca de 700 famílias. Trata-se de vilas com algumas casas de sapê e outras de alvenaria, com gente idosa, descendente de pessoas que foram escravizadas.
As dificuldades de se viver no quilombo hoje não são poucas. Se antes Anacleta conseguia o alimento, o peixe, hoje o cenário é desolador. Tudo começou na década de 1980, com a construção da Estrada de Ferro Carajás, operada pela Companhia Vale S.A.

Com ela surgiram uma série de problemas socioambientais na região, como o assoreamento de rios e igarapés, a poluição sonora e os problemas respiratórios causados pela poeira, o aumento dos trens têm dificultado travessias, causando riscos de atropelamentos.

Quem vive conta com detalhes o drama de morar numa terra ameaçada literalmente por todos os lados. Seguem plantando mandioca, milho, feijão e hortaliças, mesmo na pouca terra disponível e disputada por fazendeiros. Criam soltos nos quintais galinhas, patos, porcos, que se misturam à bola dos meninos que corre pelo campinho improvisado. Como complemento na renda, são beneficiários do Bolsa Família e da aposentadoria rural, aos que têm idade, fornecidos pelo governo federal.

Anacleta e seus irmãos do quilombo reivindicam investimentos como forma de compensação pelos danos sofridos e exigem celeridade no processo de regularização fundiária e cumprimento das medidas acordadas na Ação Civil Pública, como desentupimento dos igarapés afetados pela linha férrea, melhorias nas estradas de acesso ao povoado e infraestrutura voltada para saneamento básico, educação e saúde.

Anacleta, o que e como é ser uma quilombola?
É uma dor e uma alegria muito grandes, porque ainda não somos reconhecidos e respeitados em nossa dignidade, como povo quilombola. Avançamos muito em direitos, mas somos ainda ameaçados diariamente. Mas é uma alegria também, porque somos uma só família. Seja o quilombo que for, porque viemos de uma só mãe, que é a mãe África.

Você já esteve no continente africano. Conte-nos este reencontro com a sua origem e por que foi até la?
Estive na África em 2001, não fui sozinha. Foi uma viagem para dentro de mim, para minhas raízes. Vimos que nossa história não era e não é contada de forma verdadeira. Fomos lá e encontramos a nossa verdadeira terra, e foi para afirmar a nossa identidade que fomos. Aqui no Brasil houve um processo de várias nações sem ter especificação de nação e, se analisarmos bem, o Brasil tem várias nações.

No quilombo Santa Rosa dos Pretos, vivem cerca de 700 famílias. Como é a vida no quilombo?
Aqui era uma só família e, dentro da nossa compreensão de territorialidade, todos os quilombos são irmãos. Quando criança, com meus pais, nós costumávamos pescar bastante, comíamos o peixe que a natureza dava, fazíamos roça. Hoje ainda plantamos, mas bem menos, dados os impactos a que somos submetidos de todo lado.

E sobre a sua cultura, como vocês a mantêm, a cultivam?
Estamos sendo massacrados aos poucos. Mas tenho esperança, eu luto pra que a gente consiga viver na nossa terra, do nosso jeito. Temos as nossas danças, nossos tambores, é uma beleza, uma resistência. O quilombo e diversas outras comunidades e povoados denunciam que a Estrada de Ferro Carajás provoca diversos impactos em seus cotidianos.

A que tipos de impactos você se refere aqui no quilombo?
De tudo que se imagina de impacto. O impacto ambiental é a questão mais forte. Se você agride o ambiente ele vai agredir também. Há impacto visual, sonoro e alimentar. Porque antes a pesca nos oferecia os alimentos, era tudo em abundância, peixe natural. Os igarapés foram os primeiros a serem agredidos e não tínhamos doenças. E hoje vivemos à mercê de tanta doença. É muito forte a questão do câncer, devido ao impacto no ar impuro. Há quilombo ainda em que para uma pessoa ir até o hospital ela tem de ser levada na rede. Tem horas que a gente passa mais de meia hora para atravessar a linha do trem. É dia e noite essa situação.

O quilombo está cortado pela BR-135, como é conviver com isso?
Olhe, quando era criança via apenas carroças por aqui, agora, com essa rodovia, muita gente é atropelada, quase perdi minha filha caçula. Ela tinha cinco anos. Eu, estressada, na luta pela regularização desta terra, estava dentro de casa. Lembro-me muito bem ─ na verdade não consigo esquecer ─ e vivo com o barulho dos carros na memória. Foi em 31 de julho que minha filha quase foi atropelada. Saí desesperada e, juntando os pedaços da galinha que fora atropelada, pensando que eram pedaços da minha filha. É muito forte quando a gente ouve o barulho desses carros, vêm na mente atropelo e morte.

A Companhia Vale S.A. interpôs em 2008 um recurso administrativo contestando o processo de regularização fundiária do território quilombola. Como vocês têm reagido a isso?
É. A Vale entrou com essa contestação. Diz que desconhece a nossa origem. Ela alega que não somos quilombolas. Não é fácil falar com quem não quer ouvir e entender. Não imaginávamos que a Vale faria isso, que, além da invasão dos fazendeiros, tivéssemos de conviver com a invasão da empresa. Nós sempre pedimos respeito em relação ao território e não nos respeitam. Nós conhecemos todos os nossos limites, e as nossas terras foram invadidas. Já convocamos o Ministério Público para nos ajudar, bloqueamos a BR-135 e acampamos nas margens da ferrovia para cobrar que o processo de regularização fosse mais rápido.

Qual a situação fundiária do quilombo agora?
Estamos esperando a regularização, após esta contestação da Vale. Contamos com o apoio do Ministério Público e da Organização Não Governamental Justiça nos Trilhos e fazemos as nossas manifestações exigindo nossos direitos. A terra é nossa! É um direito nosso! E estamos lutando por ela. É uma luta desigual, mas estamos lutando e à espera.

Você já pensou em deixar este território?
Não saio deste território por nada. Quando eu era mais jovem e poderia me envolver com a vaidade do mundo, eu não deixei me abater. Hoje já com meus 49 anos não saio mesmo. Tenho um espírito jovem ainda, de uma jovem Anacleta para milhares de jovens. Hoje a minha responsabilidade dobrou, então não saio por nada desta comunidade.

Então a luta dos seus pais pela terra continua com você e, provavelmente, seguirá com seus filhos?
Dentro da minha casa tenho lutadores também, porque desde os 16 anos eu já ia para os movimentos, então meus filhos fazem o mesmo trabalho. Eles também não pensam em sair daqui, porque eu aposto no jovem, eu nunca me esqueci da minha juventude. As pessoas falam que o jovem é o futuro do amanhã, não, ele é o futuro do hoje.

Qual é seu sonho, Anacleta?
Deus me deu essa missão, de ajudar a transformar as mazelas deste mundo. Não tenho que ter medo, tenho que me encorajar. Às vezes a matéria está cansada, mas eu peço forças para Deus. Eu não deixo de sonhar, sabe. O sonho me move, me encoraja. Sonho reumanizar o ser humano, porque o que a gente vive hoje é a desumanização. Uns vivem bem matando os outros. Gostaria, no momento, que todos os seres humanos fizessem uma reflexão do que vale o ser humano. Por uma sociedade livre, de amor e paz. A vida livre é aquela que você tem o respeito pela Mãe Terra.

The Author

jornalista, autora do livro de reportagens Mulheres Extraordinárias, Paulus Editora

1 Comentário

  1. No Brasil a cultura é grande e bem diversificada…o que falta mesmo é interesse dos governantes em expandir e manter a vida social dessas pessoas. já a vida para quem vive na cidade grande é difícil…imagina para essas pessoas que tanto enriquecem nossa cultura brasileira. Nossa cultura deveria ter mais apoio e mais solidariedade a essas pessoas que trabalham muito e ganham pouco, e…ao longo do tempo dependendo de sua profissão, esforço físico e mental, adoecem!!!! A palavra adoecer acabou virando mesmo um verbo que não deveria existir em nosso plano existencial. Infelismente basta ver a tv que hoje em dia só vemos coisas negativas e falta de esperança…espero um dia ver desigualdade social e preconceito racial acabarem de vez…espero um dia ver brasileiros e terráqueos felizes…bom dia a todos!!!!

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