Racismo, até quando?

Eu não sei você, mas por aqui o peito segue apertado, angustiado. Hoje, uma sexta-feira fria em Guarulhos, depois de uma reunião e um copo quentinho de café, estou aqui sentada – que privilégio – ouvindo o relato de Mirtes. Ouvindo e chorando. Admito. Não é mimimi, como dizem uns, é o sentimento de humanidade comum a todos nós, ou a quase todos.

Mirtes Renata Santana de Souza, essa mulher forte, corajosa, ex-empregada doméstica do prefeito de Tamandaré, uma cidade do Pernambuco, fala da morte de seu pequeno Miguel. Ela fala com tanta dor e saudade. Ele era sua vida, seu orgulho, sua motivação diária

O pequeno Miguel Otávio foi muito cedo e de uma maneira que escancara a classificação que a elite deste país faz dos brasileiros. Miguel tinha apenas cinco aninhos de idade. Um sorriso sapeca, de criança verdadeiramente feliz. Morreu à procura da mãe. Foi abandonado – criminosamente – dentro de um elevador pela patroa da mãe, enquanto sua mãe passeava com a cachorra da família branca, rica.

Será que a patroa Sari Gaspar Corte Real, a primeira dama de Tamandaré, deixaria um sobrinho, um filho dentro do elevador sozinho? Será que ela apertaria o botão do elevador levando o menino para um andar mais alto, afim de que Miguel ficasse “passeando” sozinho dentro do prédio? Você deixaria uma criança sozinha no elevador?

Caímos aqui em algumas reflexões necessárias, indignações, diria. Fosse Miguel uma criança branca seria ele tratado desta maneira? Aquilo que há de mais sagrado, a vida de uma criança, foi banalizada, colocada em risco, para que a patroa, dama da elite pernambucana pudesse continuar fazendo as unhas em casa com sua manicure, em meio a uma pandemia de Covid-19, que até o momento em que escrevo este texto matou mais de 34 mil pessoas no Brasil.

Absurdo a manicure e Mirtes terem de ir até o condomínio rico, em meio à pandemia. Outro absurdo, dentre tantos, foi a demora em conseguir localizar o nome da patroa de Mirtes, porque a polícia preferiu não divulgar. E se fosse o contrário? Se Mirtes fosse a empregada preta que tivesse negligenciado a segurança da filha da patroa? Alguém duvida que ela teria sido levada no camburão e estaria presa provisoriamente, aguardando um julgamento como 43% da população prisional brasileira aguarda. Alguém duvida?

A patroa, a primeira dama, foi indiciada por homicídio culposo, pagou 20 mil de fiança e responde em casa, em liberdade. Na mesma casa em que fazia as unhas, enquanto o pequeno Miguel procurava a mãe e caia de 35 metros de altura.

O fato de a primeira-dama, branca, ter contado com privilégios mesmo sendo a criminosa, corresponde ao cenário existente dentro dos presídios que visitei, onde a esmagadora maioria dos presos são pretos. Observe que são maioria nas cadeias, não porque são os que mais cometem crimes, diferentemente do que racistas têm propagado pela blogosfera, e sim, porque todo o sistema judiciário possui mecanismos racistas que privilegiam os criminosos que são brancos e nãos os prendem. Simples assim.

Vejas as abordagens policiais pelas ruas, pelos aeroportos, pelos elevadores… Há seleção de quem deve ser preso, e morto. Das ruas até os juris. Seleção baseada em preconceitos, estigmas entre as autoridades policiais e jurídicas. E a cor da pele é elemento de decisão. Pergunte aos homens e mulheres pretas com quem você convive e se não convive… escute-os, leia-os. Fuja da ignorância, da alienação.

Enfim, este texto é um desabafo, uma maneira de arrancar do peito tanta indignação diante à banalidade do mal. Miguel, Mirtes, Ágatha, Marcos Vinícius, João Pedro, Amarildo, Marielle, George Floyd e tantas e tantas pessoas morreram e morrem diariamente vítimas de racismo, de um sentimento de superioridade branca, e que coloca os cidadãos que têm mais melanina em um lugar de não-cidadania, de não-vida.

Até quando? Até quando?

#vidasnegrasimportam

Comportamento Cultura Sistema Carcerário

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jornalista | escritora | dona de mim

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