vagão rosa é retrocesso para paulistanas

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Então, os homens terão licença para abusar das mulheres que não utilizarem o tal vagão rosa? Como serão vistas as usuários do metrô que não optarem por utilizarem esse vagão exclusivo? “Safadas”, “olha lá, ela escolheu vir aqui”? Os demais vagões serão espaços com autorização ou vista grossa para abusos, passadinhas de mão e encoxadas?

Mais uma vez estão nos podando, criminalizando. A culpa é dos nossos corpos? das nossas bundas? Ora, que sociedade é esta que vê, admite e outorga a falta de respeito. Por acaso os homens são animais irracionais? Incapazes de controlar suas “tentações”, “desejos sexuais”? Não, não o são e defendo vários deles, que penso devem estar insultados por este projeto de lei do PMDB.

Mais uma vez, a mulher é a tentação na vida do homem. Desde Eva somos as culpadas pelo erro. A vítima se torna a criminosa. Como escreveu a jornalista Eliane Brum, hoje nos colocam em vagões exclusivos e amanhã? saímos de burcas, cobertas para não chamar a atenção dos “pobres e incontroláveis homens”? Ora, que absurdo.

Somos a maioria! Não seremos confinadas ou adjetivadas por entrar neste ou naquele espaço. Somos livres. Mulheres eduquem seus filhos para que se comportem como gente e Homens, por favor, o sejam. Simples assim.

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Escravidão ainda é realidade em Guarullhos

Mais uma oficina de costura que opera com mão de obra 'escrava' / Foto da Fiscalização do MTE
Mais uma oficina de costura que opera com mão de obra ‘escrava’ / Foto da Fiscalização do MTE

A empresa têxtil Mar Quente Confecções Ltda. de Guarulhos foi incluída, na última terça-feira, no Cadastro dos Empregadores do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) – a chamada lista suja’- por ter sido flagrada em ação fiscal da pasta o ano passado por submeter seus trabalhadores a condições análogas ao trabalho escravo.

Localizada no Jardim São João (Região São João), a oficina de costura contratada pela empresa contava com três trabalhadores bolivianos que foram libertados da situação degradante em que se encontravam. Ontem, a Folha Metropolitana esteve no local e verificou que ainda há uma família boliviana residindo no espaço que era uma oficina.

“A oficina foi lacrada, o pessoal que trabalhava aqui para mim voltou [para a Bolívia]. Não sei de mais nada, fiquei aqui abandonado”, disse o boliviano que tomava conta da oficina que não quis se identificar à reportagem, afirmando que não há mais trabalho com confecções e que ali apenas reside de aluguel com sua esposa e seu filho.

Na atualização semestral da “lista suja” foram incluídos os nomes de 91 novos empregadores e excluídos 48, em decorrência do cumprimento dos requisitos administrativos. Atualmente o cadastro possui 609 nomes de empregadores flagrados na prática de submeter trabalhadores a condições análogas às de escravo, sejam pessoas físicas ou jurídicas.

Publicada na Folha Metropolitana, edição de 4 de julho.

Rondônia sofre com as cheias do Rio Madeira

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Ruas do Centro de Porto Velho (RO), alagadas pelas águas do Rio Madeira.

O estado de Rondônia ainda sofre com as cheias do Rio Madeira, que subiu cerca de 20 metros nos últimos três meses. Na capital, Porto Velho, 21 ruas estão intransitáveis, debaixo d`água. O comércio, repartições públicas, casas e praças, entre elas a Praça da Estrada de Ferro Madeira  Mamoré, que guarda um patrimônio cultural e histórico do Brasil, esperam a água baixar para que a vida volte ao normal.

O ribeirinho Raimundo Oliveira da Costa, 65 anos, perdeu seu sítio, localizado na Comunidade Niterói, no baixo Rio Madeira. A água levou suas plantações, seu sustento. Atualmente vive de favor com o filho na casa de um parente e ganha dinheiro levando turistas e curiosos para conhecerem a nova realidade da cidade submersa.

“A água chegou na minha casa no dia 20 de fevereiro e desde então eu moro na casa de um primo meu. Até agora eu não tive ajuda de nada, recebi uma cesta básica que me disseram que de 15 em 15 dias iam entregar. Mas já faz quase um mês que fizemos o cadastro”, disse o ribeirinho enquanto guiava a equipe de reportagem na canoa, entre as ruas de Porto velho.

“Com isso aqui [referindo-se ao trabalho], dá para fazer um dinheirinho. Tem dias que faz R$ 100, até R$ 200, mas tem as despesas também. Se não fosse isso como é que eu ia viver?”, questionou Raimundo, que nasceu e cresceu à beira do Rio Madeira. O ribeirinho é uma das cerca de 20 mil pessoas atingidas pela cheia.

Foto: Joaquim Souza | Praça da Estrada de Ferro Madeira  Mamoré
Foto: Joaquim Souza | Praça da Estrada de Ferro Madeira Mamoré

A Arquidiocese de Porto Velho está em campanha há mais de três meses para arrecadar e distribuir cestas básicas, roupas e móveis aos atingidos. O coordenador da campanha, padre Miguel Fernandes, pároco da Paróquia São João Bosco, que se tornou ponto de referência aos atingidos e acolhe 12 famílias, fala do trabalho da Arquidiocese, que já entregou mais de 40 toneladas de alimentos.

“Já são três meses nessa angústia e o rio cada vez sobe mais. É assustador. São vários distritos isolados. A BR 364 [rodovia] está alagada. São milhares de pessoas que perderam o seu referencial, estão fora de suas casas, perderam tudo”, disse o padre, que é referência, inclusive aos órgãos públicos, no amparo aos desabrigados e na logística de entrega dos mantimentos.

Há dois meses vivendo no improviso

Rovilson Denic Nunes é um dos atingidos pela cheia histórica. Casado, pai de seis filhos, encontrou abrigo na Paróquia São João Bosco, na região central de Porto Velho. Sua casa, localizada no bairro Triângulo, está alagada e suas crianças não frequentam a escola há mais de dois meses.

Foto: Joaquim Souza | Raimundo Oliveira ganha dinheiro levando turistas até o centro alagado
Foto: Joaquim Souza | Raimundo Oliveira ganha dinheiro levando turistas até o centro alagado

“Faz dois meses que estamos aqui. Foi rápido demais quando a água chegou, nós não esperávamos. A gente não queria sair, confiamos que a água não ia chegar, mas ela está lá acima do teto da minha casa”, disse Rovilson, em sua cama improvisada no ginásio da paróquia. “Disseram que não ia acontecer nada com a gente, porque fizeram uma contenção de pedra, mas a água começou a minar pela barragem de pedra, a ponto de estourar e pegar todo mundo dormindo dentro de casa. Perdemos móveis, o guarda-roupa que eu tinha, tudo o que eu tenho está aqui”, disse o paranaense, há 22 anos em Rondônia.

Para o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), o acúmulo de água nos reservatórios e o aumento da vazão dos vertedouros das usinas de Santo Antonio e Jirau potencializaram os alagamentos naturais do período e estes agora atingem áreas que antes não sofreriam alagamento. Procurado, o Consórcio Santo Antonio Energia preferiu não se pronunciar sobre o tema.

Nesta sexta-feira, mais uma embarcação da Defesa Civil da Prefeitura de Porto Velho desce o Rio Madeira para levar alimento e medicação às famílias que estão ilhadas e acampadas em distritos banhados pelo rio. Nossa equipe de reportagem acompanhará esta ação.

A jornalista Karla Maria é enviada especial a Porto Velho (RO) pela Revista Família Cristã/Signis Brasil.

“A GCM já me bateu várias vezes”

Natasha
Foto: Lucas Dantas

Ex-moradora de rua, Natasha conta sua trajetória e recomeço após aceitar ajuda do Consultório de Rua, uma iniciativa do SUS de reduzir danos e ampliar possibilidades de vida dos que vivem pelas ruas

Publicado na Folha Metropolitana, em 11 de janeiro de 2014

João Ferreira Aguiar, 51, é um dos cerca de 80 milhões de brasileiros que têm algum tipo de dependência química, no caso, álcool. Nesta reportagem será tratado por Natasha, a única exigência feita para revelar sua história marcada pelo preconceito, que só tomou outros rumos há cerca de um ano, quando aceitou a ajuda do Consultório de Rua, por meio da equipe multiprofissional “Acolher” do Sistema Único de Saúde (SUS).
“Eu bebia pinga pura, tinha vezes que a assistente social vinha falar comigo e eu fugia, para ela não me ver porque eu estava dopada”, revela Natasha. O trabalho da equipe em Guarulhos é composto por um clínico geral, uma assistente social, psicólogo e enfermeiras. Consiste em construir laços de confiança com o morador em situação de rua para convencê-lo a aceitar o tratamento médico.
“Levamos praticamente um ano para convencê-la a se tratar”, conta a assistente social Helena Luisa de Sá Almeida. Para a coordenadora e enfermeira da equipe Valdenice Cristine Severino “ver Natasha bem é uma motivação para continuar o trabalho e ajudar outras pessoas”. Natasha passou por cirurgias, já está mais saudável. Mora com a prima no Jardim São Domingos. Começou recentemente em seu novo emprego como costureira, arrematando peças de roupa, só não consegue arrematar ainda a dependência ao álcool. “Me controlo, mas ainda bebo”, conclui.

A vida nos albergues
Antes de encontrar a ajuda do consultório, Natasha passou por diversos albergues, tentativas e recaídas no álcool. “O primeiro albergue que eu morei foi o São Francisco, no Glicério [em São Paulo]. Fiquei um bom tempo lá. Arrumei emprego e fui morar em um prédio social por quase um ano”, diz.
Mas a vida no albergue exigia regras, e Natasha já estava desacostumada com elas. “Passei em muitos albergues, de Cruzeiro (RJ) até chegar em Arujá (SP). Passava nas casas de convivência, nos albergues, mas não ficava lá. Quando eu bebia, eu ficava alegre e eu gostava de ficar na rua”, conta.

Foto: Lucas Dantas
Foto: Lucas Dantas

Denúncia de maus tratos da GCM
Nos anos que morou na rua, Natasha sofreu agressões. “A GCM [Guarda Civil Metropolitana] já me bateu várias vezes, porque eu cozinhava, eu lavava a roupa dos meninos na rua”, conta Natasha que dormia também na Praça Oito, onde conheceu um famoso jogador de futebol do Palmeiras, na mesma condição que a sua.
“Depois que aconteceu o Consultório de Rua, nós ficamos livre dessa humilhação. Nós tivemos médico na rua, enfermeiros, toda aquela coletividade de pessoas que estão em situação de querer ajudar. O Consultório de Rua é sim a solução para tirar as pessoas do vício, porque nos respeita”, afirma.

Brasil tem 14 Consultórios de Rua
O Consultório de Rua de Guarulhos é um dos 14 instalados no Brasil. Iniciou suas atividades em novembro de 2011 e recebeu aporte de R$ 100 mil para sua implantação. É itinerante, mas possui base fixa no Centro de Atenção Psicossocial (Caps AD), Álcool e Droga (rua Luiz Faccini, 518, no centro). Com atendimento de segunda a sexta-feira, das 13 às 22 horas.
As equipes também realizam intervenções educativas e psicossociais, e contam com insumos para tratamento de situações clínicas comuns, além de preservativos, cartilhas, material para curativos, e medicamentos de uso mais frequente.

Enem, uma porta de saída do mundo do crime

Foto: Felipe Larozza
Foto: Felipe Larozza

Dos 9.500 adolescentes que cumprem medida sócio educativa nas 121 unidades da Fundação Casa no Estado de São Paulo, 838 se preparam para as provas do Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem PPL, voltado para pessoas em privação de liberdade, que acontecerá nos dias 3 e 4, nas próprias unidades.

Mais do que uma porta de acesso às universidades, o Enem parece ser a motivação de retomada da juventude, do convívio familiar, da autoestima perdida pelos atalhos do crime, do tráfico. “O meio mais fácil que a gente encontra para ter dinheiro é roubar ou traficar mesmo”, afirma João Pedro (nome fictício), 17 anos, há seis meses na unidade de Arujá.

Para chegar até João foram atravessados portões e trancas, que lembram a estrutura de um presídio. As semelhanças não param por aí, se estendem na postura dos adolescentes, mãos voltadas para trás e olhar baixo que só se levanta para falar do futuro. “Fiquei sabendo do Enem pela professora Thâmara, ela me falou e disse que eu ia poder ganhar bolsa. Pretendo ser médico, cuidar das pessoas”, disse Luis Roberto (nome fictício), também 17 anos.

Luis gosta de escrever cartas e se pudesse escolher o tema da redação do Enem, escreveria sobre a vida dentro da unidade. “Isso aqui dá um livro, tem muitas histórias, aqui não é fácil”. Ao seu lado, João emenda “eu gostaria de escrever sobre a guerra no Rio de Janeiro, nos morros, isso daí eu sei”. Como sabe? Os amigos, o jornal e as músicas ensinaram.

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Rotina de estudos conta com apoio

Além da redação, os candidatos se preocupam com as questões e a diretora da unidade, Vilma Moreira de Oliveira Ribeirinho, ajuda diretamente com apostilas e provas de vestibulares passados. “A diretora imprimiu as provas dos anos anteriores, então a gente estuda aquelas questões depois da aula. Aqui a gente tem que estudar e fazer esses cursos, pra passar o tempo, senão a gente vai sair com a cabeça oca”, afirma Mario Henrique, 17 anos, que deseja ser administrador.

Os adolescentes têm aula regular das 7h30 às 12h30, e à tarde têm cursos de artesanato,  informática, jardinagem, leitura livre e acesso à quadra de esportes. “Fornecemos todo subsídio para que o adolescente na hora de voltar à sociedade, se encontre e encontre seu caminho”, disse a diretora Vilma.

Durante a conversa, além do apoio das famílias na decisão de estudar, um outro foi unânime, o da professora Thâmara Gumarães, que ensina biologia, química e física. “A professora explica as coisas da melhor forma. Lá fora os professores não estavam nem aí, eu não entendia nada e larguei tudo de mão. Só quando eu vim pra cá mesmo que comecei a entender melhor”, disse João concluindo “se eu continuasse naquela vida eu ia acabar morto, então eu mudei, minha cabeça, amadureci aqui”.

Publicado no Metro News e na Folha Metropolitana, dia 27 de novembro de 2013.

“Era muita cachaça, mas me acostumei a ser sozinho”

Foto: Felipe Larozza / Senhor João Plácido
Foto: Felipe Larozza / Senhor João Plácido

É na rua Carlos Mariguela, em Guarulhos, que João Plácido Vieira tenta recuperar parte de sua história e família perdidas pelo tempo. Natural do Piauí, João deixou sua terra há cerca de 50 anos, e desde então não tem notícias da família.

Chegou ao Lar Batuíra, em 2009, aos 73 anos, depois de ter sido abandonado em Itaquaquecetuba, no mesmo ano, pelo proprietário da Casa de Repouso para Idosos Aprisco. “Ele foi encontrado na porta de um bar, abandonado por uma entidade. Estava sem documentos, não temos nenhuma informação sobre ele, além daquilo que ele conta”, afirma Palmira Santos Rocha Cabral, assistente social do Lar Batuíra.

Como João Plácido chegou à Casa de Repouso em Itaquaquecetuba ninguém sabe. O piauiense de Picos não fala muito, mas sorri. Solta frases de um passado distante e difícil de ser montado e compreendido histórica e geograficamente. “Foram cinco dias de viagem de ônibus. Ela era pequena, o nome dela é Maria de Jesus. Eu devia ter uns 22 anos quando as deixei”, diz lembrando também da esposa Raimunda Maria da Vieira e dos pais Plácido José Vieira e Maria José da Conceição.

Foto: Felipe Larozza / Senhor João Plácido
Foto: Felipe Larozza / Sorriso, sempre

João Plácido não recebe visitas, é hipertenso, caminha com dificuldades, sempre escorado em uma cadeira. Lê a Bíblia, acredita em Deus, e mais, que nunca mais verá sua família. Não esquece do tempo que morou nas ruas. “Fiquei sozinho, jogado. Era muita cachaça, mas me acostumei a ser sozinho”, diz senhor João, com um olhar de quem se cansou desse modo de ser.

Casa de Repouso abandonou outros idosos

João Plácido não foi a única vítima da Casa de Repouso para Idosos Aprisco, de Itaquaquecetuba. Em maio de 2012, o juiz Fernando de Oliveira Domingues Ladeira, juiz de Direito da 2ª Vara Criminal de Itaquaquecetuba citou Genival Beserra da Silvaco, proprietário da casa de repouso, a responder sobre a acusação de abandono dos idosos:  Deuzira Maria Madalena, 81 anos;  Nelson Cosito, 69 anos e o próprio João Plácido Vieira, na época com 73 anos.

Publicada na Folha Metropolitana, dia 26 de novembro de 2013

Hidrelétrica de Belo Monte, uma ameaça à Amazônia

FelícioProcurador da República, Felício Pontes, destaca a importância da realização do encontro na Amazônia, já que a região passa por retrocessos.

Presente na abertura do 1º Encontro da Igreja Católica na Amazônia Legal, nesta segunda-feira, 28, em Manaus (AM), o procurador da República junto do Ministério Público Federal do Pará, Felício Pontes, destaca como importante a realização do encontro na Amazônia, já que a região passa por retrocessos.

“Não poderiam os bispos da Amazônia terem escolhido o momento mais propício para se reunirem. Há um novo desafio pela frente: O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) é o maior programa em termos financeiros que já existiu na história do Brasil, e está voltado dentro da região amazônica para o extrativismo da água, de minérios e este tipo de atividade tem um impacto muito grande, não só no meio-ambiente, mas no social, então muitas populações são atingidas e terão que ser realocadas”, explica o procurador.

Segundo o Movimento Viva Xingu serão removidas entre 16 mil a 25 mil pessoas. “Em Belo Monte estão sendo realocadas da área ribeirinha do rio Xingu, onde tinham toda proteína que precisam para viver, para um lugar afastado em um planalto. Como que essas pessoas vão sobreviver?”, questiona o procurador.

A pergunta parece não ter resposta nem da justiça brasileira. Na última sexta-feira, 26, o desembargador Antonio de Souza Prudente, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), deferiu nova liminar para uma das Ações Civis Publicas (ACP) do Ministério Público Federal (MPF) contra Belo Monte.

Com esta decisão as obras da usina estão suspensas e o Banco Nacional de Desenvovimento Social (BNDES) está desautorizado a fazer repasses financeiros à hidrelétrica antes do cumprimento de condicionantes sociais e ambientais, e a Energia pagará multa de R$ 500 mil reais ao dia, caso descumpra a lei.

Enquanto Belo Monte está paralisada, outras continuam em obras e projetos estão nos papeis. “Estão previstas para os próximos 20 anos, a construção de 40 hidroelétricas na Amazônia, 40% delas atingem povos indígenas e 100% delas atinge as populações tradicionais (quilombolas, colhedores de açaí, seringueiros), revela Felício Pontes.

“Essa afetação não significa uma melhora na condição de vida dessas pessoas, muito pelo contrário, elas vão ser tiradas de lugares onde ela tem o perfeito domínio e harmonia com a natureza para lugares de onde ela não possui qualquer domínio, nenhum conhecimento, nem história”, ressalta o procurador.

O procurador Felício Pontes afirma que em nenhum dos projetos de barragens, o governo fez consulta pública, prévia, livre e informada como manda a Constituição Federal e a Convenção 69 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Igreja na Amazônia Legal se reúne em Manaus

IMG_0066[1] Bispos, coordenadores de pastoral, religiosos, leigos e convidados estão reunidos para discutir a ação da Igreja Católica na Amazônia Legal

Por Karla Maria e Osnilda Lima, fsp/Signis Brasil

Na segunda-feira, 28, teve início em Manaus (AM), o 1º Encontro da Igreja Católica na Amazônia Legal que vai até quinta-feira, 31. Participam do evento bispos, coordenadores de pastoral, religiosos, leigos e convidados. A iniciativa é da Comissão Episcopal para a Amazônia (CEA), da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

A Amazônia Legal engloba seis regionais da CNBB: Norte 1, Norte 2, Norte 3, Nordeste 5, Noroeste e Oeste 2 distribuídos em nove estados brasileiros pertencentes à Bacia amazônica que corresponde ao Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e parte dos estados do Mato Grosso e Maranhão, totalizando uma superfície de aproximadamente 5.217.423 quilômetros quadrados correspondente a cerca de 61% do território brasileiro.

Contudo, a população amazônica corresponde a 12,32% do total de habitantes do Brasil segundo Censo do IBGE de 2010. Na Amazônia Legal vivem em torno de 24 milhões de pessoas, em 775 municípios.

A região contem 20% do bioma cerrado e abriga o mais extenso dos biomas brasileiros, que corresponde a 1/3 das florestas tropicais úmidas do planeta, detém a mais elevada biodiversidade e 1/5 da disponibilidade mundial de água potável.

IMG_0068[1]Na abertura do encontro, o cardeal dom Cláudio Hummes, arcebispo emérito de São Paulo e presidente da CEA, ressaltou: “Estamos aqui em um encontro que pretende ser amplo, profundo, histórico. Pretende sim, responder à interpelações de um novo tempo. Um novo tempo que está dentro desta história bonita e gloriosa da Amazônia e da Igreja presente desde o início e às vezes a única presente”.

O cardeal ressaltou o fato de ser, o encontro, um momento histórico no curso dos 400 anos de evangelização na Amazônia, com um resgate da caminhada da Igreja na Amazônia desde o Concílio Vaticano II, que, segundo ele, abriu a Igreja para o mundo, no convite a ser missionária. “Depois tivemos Midellín para aplicar aos poucos o Vaticano II, em seguida houve o grande encontro de Santarém (1972), que em 2012 celebramos os seus 40 anos, mas nunca tínhamos reunido todas as Igrejas da Amazônia legal, e nós achávamos que isso deveria acontecer”.

Dom Cláudio fez questão de lembrar que a CEA não tem poder e pretensão de decidir nada, é apenas um serviço que quer reunir e encorajar para refletir juntos. “Tudo o que surgirá deste encontro são vocês que vão decidir. 59% do território brasileiro é Amazônia Legal. Vocês representam mais da metade do território nacional. Hoje como estamos respondendo aos desafios da Amazônia?

Nos debrucemos sobre isso, a Amazônia é um banco de prova para a Igreja, é um teste decisivo para o futuro da Igreja”, desafia do Claudio que lembra ser esse um desafio lançado pelo papa Francisco.

“E nós Igreja temos de saber ouvir e saber resolver, o papa nos disse para termos coragem, disse para mim e a outros bispos: ‘Vocês têm de arriscar, têm de ir para frente, porque se não arriscam já estão errando’. Temos de dar passos novos, urgentes e decisivos para o futuro”, provoca dom Claudio.

Por Karla Maria e Osnilda Lima, fsp

1º Encontro da Igreja Católica na Amazônia Legal

DSC_3595Para dom Moacyr Grecchi, Amazônia é vista como colônia do Brasil. Encarnação na realidade e libertação integral darão norte a Encontro na Amazônia Legal

Por Karla Maria, Osnilda Lima, fsp e Wilson Silvaston – Signis Brasil
Foto: José Altevir, CSSp

Começa hoje à noite, 28, em Manaus (AM), o 1º Encontro da Igreja Católica na Amazônia Legal, que reúne bispos e lideranças da região para discutir as realidades do mundo urbano; das populações indígenas e quilombolas; o mapa das religiões nas Amazônia; os impactos socioambientais dos grandes projetos do Governo Federal, do agronegócio, do tráfico de pessoas entre outros temas que atingem a realidade do povo amazônico.

Defensores dos Direitos Humanos e promotores do Ministério Público também participam denunciando e apontando saídas para essas questões que há 40 anos são pauta para a Igreja Católica na Amazônia. “A Amazônia há 40 anos, lá em Santarém (PA) (primeiro encontro dos bispos da Amazônia em 1972) montou um documento que orienta até hoje a caminhada da Igreja na Amazônia”.

O Documento de Santarém é o rosto, a identidade da missão assumida pela Igreja na Amazônia. Ele apresenta quatro prioridades de ação: a formação de agentes pastorais locais; de comunidades cristãs de base, que são as Comunidade Eclesiais de Base (CEBs); frentes missionárias e a Pastoral Indigenista, que segundo dom Moacyr Grechi, membro da Comissão Episcopal para a Amazônia, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) estava “um pouco deixada de lado”.

Ameaçado de morte em três oportunidades por defender o direito à terra das comunidades tradicionais e ribeirinhas, dom Moacyr aponta que as prioridades de ação definidas em Santarém (PA), foram tomadas à luz de dois princípios. Libertação integral e encarnação na realidade. “Não só a libertação da alma com as desobrigas, mas um empenho para que houvesse uma consciência de que precisavam, por exemplo, os seringueiros se libertarem da escravidão do patrão e do sistema que os oprimia. À luz também da encarnação  da realidade, que nós missionários, que viemos de outros lugares, de outras partes do mundo, precisamos assumir a realidade local”, afirma o bispo.

E a realidade apresenta desafios, que segundo dom Moacyr, são os mesmos de há 40 anos. “A Amazônia continua sendo uma colônia do Brasil, uma  colônia energética. Era extrativista, veio o ouro, a cassiterita, a madeira, destroem a floresta sem dó nem piedade e agora mais uma praga: a soja, a cana, o boi e  a corrupção”, denuncia.

O encontro segue até quinta-feira, 31, com representantes dos seis regionais da CNBB que compoem a Amazônia Legal.

Tráfico de pessoas, trabalho escravo, conflito de terra são temas de debate para Igreja da Amazônia Legal

dorothyHá poucos dias fui comunicada de que farei uma cobertura na Amazônia, cobrirei o 1. Encontro da Igreja [Católica] na Amazônia Legal. Será em Manaus (AM), Estado que nunca pisei, calor que nunca senti, com sabores ainda a serem descobertos. O objetivo do encontro é que os bispos, padres, missionários, agentes das pastorais compartilhem as iniciativas de atuação que vem realizando na região.

Além da partilha das ações para a evangelização, há a partilha daquilo que é feito na defesa da dignidade humana de diversas formas: denúncia do trabalho escravo de crianças, da exploração sexual de mulheres, do descompasso dos centros urbanos tendo em vista os impactos de obras federais, da fome, do abandono do Estado, dos conflitos de terra indígenas e de conservação do meio ambiente.

Denúncias estas, trabalhos estes retribuídos com ameaças de morte. Segundo a Comissão Pastoral da Terra, atualmente 295 pessoas, entre elas dom Pedro Casaldáliga, estão ameaçadas de morte, 199, ou 67% delas, encontram-se na Amazônia Legal. Irmã Dorothy Mae Stang era uma religiosa norteamericana naturalizada brasileira. Estava desde a década de 1970 junto aos trabalhadores rurais da Região do Xingu. Trabalhava para minimizar os conflitos fundiários na região, recebeu diversas ameaças, mas mantinha-se firme. “Não vou fugir e nem abandonar a luta desses agricultores que estão desprotegidos no meio da floresta. Eles têm o sagrado direito a uma vida melhor numa terra onde possam viver e produzir com dignidade sem devastar”.

Irmã Dorothy foi assassinada com seis tiros, um na cabeça e cinco ao redor do corpo, aos 73 anos de idade, no dia 12 de fevereiro de 2005. Em 2011, o casal de seringueiros João Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo também foram assassinados. Dom Erwin Krautler, o bispo do Xingu esta ameaçado, dom José Luíz Ascona, o bispo da Ilha de Marajó também. Os religiosos frei Gilvander Luís Moreira e Henriqueta Cavalcante também estão ameaçados de morte, entre tantos outros homens e mulheres.

A dignidade humana ferida na Amazônia – No Regional Noroeste, que compreende os Estados do Acre, Sul do Amazonas e Rondônia, a preocupação está no impacto que os grandes projetos do governo federal e as Pequenas Centrais Hidrelétricas estão gerando aos centros urbanos: exploração sexual, impactos às comunidades tradicionais, ribeirinhas e ao meio ambiente.Os conflitos de terra também estão presentes.

No Norte 1, que compreende o Norte do Amazonas e Roraima, há a preocupação com a acolhida a imigrantes haitianos, com as populações tradicionais e ribeirinhas, com os povos indígenas da Raposa Serra do Sol. Já no Regional Norte 2, nos estados do Amapá e Pará, bispos, religiosos e agentes de pastoral estão ameaçados de morte por denunciarem o tráfico internacional de mulheres, o trabalho escravo em usinas de carvão, os conflitos e interesses em terras indígenas.

A pobreza, o tráfico de mulheres e o trabalho escravo também estão presentes nos regionais centro Oeste, que compreende parte do Tocantins, Goiás e Distrito Federal e Oeste 2, a outra parte do Tocantins e Mato Grosso; e no Nordeste 5, o Maranhão, que atualmente é o penúltimo Indíce de Desenvolvimento Humano (IDH) do País.

Qual a ação da Igreja Católica diante destes fatos?

“Expressamos nossa gratidão ao Deus da vida, não obstante nossas fragilidades, nossa Igreja tem anunciado Jesus Cristo ressuscitado, caminho, verdade e vida e tem marcado presença junto ao povo sofrido, sendo muitas vezes a voz dos povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas, seringueiros e migrantes, nas periferias e em novos ambientes dos centros urbanos animando as comunidades na reivindicação do respeito pela sua história e religiosidade.

É também a vida destes povos, seu modo de viver, sua simplicidade, seu protagonismo, sua fé que nos encantam! Não faltou o testemunho de entrega da própria vida até o derramamento de sangue. Este testemunho nos anima, nos encoraja e nos fortalece. São também protagonistas religiosos e religiosas, pastorais, movimentos e serviços que tem sido uma força viva e atuante na realidade das nossas comunidades. ‘Cristo aponta para a Amazônia’ lembrava o Papa Paulo VI aos bispos da Amazônia por ocasião de seu encontro em Santarém, de 24 a 30 de maio de 1972, marco indelével na história da Igreja desta grande região brasileira, habitada por povos de culturas e tradições tão diferenciadas do outro Brasil”.

Este é um trecho da carta publicada em Julho de 2012, na celebração final do 10º Encontro da Igreja na Amazônia, realizada em Santarém (PA).

Colaborou Osnilda Lima, da Revista Família Cristã, Com quem trabalharei na cobertura destes temas, na Amazônia. Bora Lá.

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